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terça-feira, 29 de março de 2016

Lolita - Vladimir Nabokov


AUTOR: Vladimir Nabokov
EDITORA: ALFAGUARA
ISBN: 9788579620560
ANO: 2011 (lançado originalmente em 1955)
NÚMERO DE PÁGINAS: 392 
Lolita é um dos mais importantes romances do século XX. Polêmico, irônico, tocante, narra o amor obsessivo de Humbert Humbert, um cínico intelectual de meia-idade, por Dolores Haze, Lolita, 12 anos, uma ninfeta que inflama suas loucuras e seus desejos mais agudos. A obra-prima de Nabokov, agora em nova tradução, não é apenas uma assombrosa história de paixão e ruína. É também uma viagem de redescoberta pela América; é a exploração da linguagem e de seus matizes; é uma mostra da arte narrativa em seu auge. Através da voz de Humbert Humbert, o leitor nunca sabe ao certo quem é a caça, quem é o caçador.

Considerando que Machado nos deu um belo exemplo de como a narrativa em primeira pessoa não nos conta a história como é, mas como o narrador a entende, era de se esperar que os leitores brasileiros teriam malícia para distinguir a Lolita de Humbert Humbert da real Lolita – tão real quanto se pode ser uma personagem. Foi com certa surpresa que, ao procurar resenhas, eu tenha encontrado não só menções ao amor (!) de H.H. quanto, numa das resenhas mais elogiadas do Skoob, o despejo da culpa naquela que seria a principal vítima da trama. Nabokov conseguiu provar que, com arrogância e uma bela (muitas vezes, irritante) narrativa, até mesmo um pedófilo que não nega suas perversões consegue convencer as pessoas que o agressor foi uma vítima do agredido.
Humbert nunca esconde sua fixação por ninfetas – até criando sua própria descrição delas – e sua paixão devastadora por Lolita; o narrador, inclusive, reconhece certas ações como imperdoáveis, algumas carregadas de culpa. O brilhantismo de Nabokov entra em cena aqui: como o próprio narrador se descreve como um velho bastardo-mas-nem-tão-bastardo-assim, é fácil escorregar no próprio senso de moral e, dependendo da sua capacidade de compreensão, empatizar com o pobre H.H.
Se liga na inocência:
Senhoras e senhores membros do júri, quase todos os pervertidos sexuais que anseiam por uma latejante relação com alguma menininha (sem dúvida pontuada por ternos gemidos, mas não chegando necessariamente ao coito) são seres inofensivos, inadequados, passivos e tímidos, que apenas pedem à comunidade que lhes permita entregar-se a seu comportamento supostamente aberrante mas praticamente inócuo, que lhes deixe executar seus pequenos, úmidos e sombrios atos privados de desvio sexual sem que a polícia e a sociedade o persigam. Não somos tarados! Não cometemos estupros, como o fazem muitos bravos guerreiros! Somos seres infelizes, meigos, de olhar canino, suficientemente bem integrados para saber controlar nossos impulsos na presença de adultos, mas prontos a trocar anos e anos de vida pela oportunidade de acariciar uma ninfeta. Positivamente: não somos assassinos. Os poetas nunca matam.”

Apesar do autor deixar (a meu ver, bem) claro o tom abusivo dos comportamentos de H.H., ainda há quem interprete a história do pedófilo de meia-idade como a mera paixão por uma garotinha que, apesar dos 12 anos, é um pequeno demônio sedutor, incapaz de amar seu protetor de volta. Humbert seria um mero peão do próprio desejo, escravo da ninfeta que já não era pura quando a tocou pela primeira vez.
É interessante perceber como dois grupos podem interpretar a mesma história de maneiras tão diferentes (o que me lembra Blue Valentineo filme  de 2010 sabiamente traduzido para Namorados Para Sempre). Nabokov nunca dá a cartada final, dizendo com todas as letras a quem devemos culpar, deixando o leitor livre para julgar seus personagens como quiser.
O que eu tenho a dizer, é: mesmo que pudesse ser interpretado como amor – algo que eu me recuso –, nem tudo pode ser justificado em nome deste. Lolita, sendo maliciosa ou não, tinha somente 12 anos, enquanto Humbert tinha lá seus 40. Não que seja impossível uma menina tentar, talvez em um desejo de se mostrar mais madura ou imitar os filmes e novelas, ser provocante – a questão aqui é o sucesso. Até onde eu saiba, a mera atração a meninas pré-púberes, é, sim, pedofilia. E, como é evidenciado por vários trechos do livro, Lolita não precisava fazer absolutamente nada para deixar o pobre Humbert com tesão.
Mesmo através do véu defensivo de Humbert Humbert, temos vislumbres dos verdadeiros sentimentos de Lolita e da verdadeira natureza do narrador. Enquanto ela é sempre descrita como manipuladora e fria, que faz o próprio guardião de gato e sapato, não é preciso muito trabalho pra perceber quem mandava ali:
[...] Lô levantou os olhos com um semi-sorriso de surpresa e, sem dizer uma palavra, desferi com as costas da mão uma tremenda bofetada que atingiu em cheio a maçã dura e quente do seu rosto.”

Toda essa resenha serve mais como um apelo a quem pretende ler a obra – o que recomendo por demais, apesar do desabafo – ou relê-la. Não se deixe enganar por Humbert Humbert. Enquanto reescrevia esta resenha (e relia trechos do livro) pela décima vez , só pude pensar em como seria interessante um mock trial de tudo o que foi narrado – e me assusta considerar que, dependendo do júri, Humbert ainda poderia ser inocentado. 
Enfim, como diria meu professor de literatura, isso daria um mestrado.

p.s: A edição que eu li, de uma coleção antiga d'O Globo, com capa dura, foi a incrível bagatela de R$4,00 haha. Saudades Rio <3

4 comentários:

  1. Até que enfim tô lendo uma resenha boa de Lolita <3 É incrível como o pessoal desgosta desse livro muitas vezes por falta de interpretação. Bom, tu não sabe, mas esse é um dos meus livros preferidos da vida! Quando falo isso recebo várias levantadas de sobrancelha porque, bem, a história não é bonita. Mas como tu colocou na tua resenha, o modo como Nabokov criou e narrou a história é algo genial. É um livro que faz a gente pensar, sair da zona de conforto (principalmente em alguns trechos nos quais deixa a gente indignada com o que acontece), isso sem falar na escolha perfeita das palavras. Definitivamente um livro que todo mundo deveria ler!

    http://estilodeaudrey.com.br/

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  2. Oi Mai, muito obrigada <3 Eu reescrevi essa resenha tantas vezes e ainda tô achando ela bem pequena, já estava pensando em apagar o post - agora vou só editar haha. A cada vez que eu reescrevia, lia um trecho do livro novamente e já tô pensando em reler, sendo que eu terminei mês passado. O Humbert é um pé no saco mas a narrativa é bem (difícil encontrar o termo) interessante, bem construída. Vejo tanta gente com outra interpretação que me pergunto se leram as mesmas coisas que eu - o que só prova as habilidades do Nabokov.

    Enfim, obrigada pela visita :)

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  3. Oi Bárbara e Ná.
    As resenhas aqui são perfeitas.
    Mesmo sem muito tempo pra ler um bom livro ultimamente as dicas aqui despertam esse desejo em voltar a ler muito mais.
    Bjos meninas e um ótimo mês de Abril.

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    Respostas
    1. Olá Cristal!
      Que ótimo! Isso indica que estamos no caminho certo... Haha.
      Obrigada, pra você tb!
      Bjs
      ;)

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